Pular para o conteúdo principal

Por que sofremos?



Do livro 'O Problema do Ser, do Destino e da Dor'
Léon Denis (1922) Capítulo XXVI: A Dor - Página 283 
Baixar o livro completo em PDF


                  Fundamentalmente, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. Sem dúvida, as falhas do passado recaem sobre nós com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino. O sofrimento, muitas vezes, não é mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas; mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo; mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos. Principalmente a esses, a todos aqueles que sofrem, têm sofrido ou são dignos de sofrer que dirijo estas páginas. A dor física produz sensações; o sofrimento moral produz sentimentos. (...)

O prazer e a dor estão, pois, muito menos nas coisas externas do que em nós mesmos; incumbe, pois, a cada um de nós, regulando suas sensações, disciplinando seus sentimentos, dominar umas e outras e limitar-lhes os efeitos. (...)

É muito difícil fazer entender aos homens que o sofrimento é bom. Cada qual quereria refazer e embelezar a vida à sua vontade, adorná-la com todos os deleites, sem pensar que não há bem sem dor, ascensão sem suores e esforços.

A tendência geral consiste em fecharmo-nos no estreito círculo do individualismo, do cada um por si; por essa forma, o homem abate-se, reduz a estreitos limites tudo quanto nele é grande, tudo que está destinado a desenvolver-se, a estender-se, a dilatar-se, a desferir voo: o pensamento, a consciência, numa palavra, toda a sua alma. Ora, os gozos, os prazeres e a ociosidade estéril não fazem mais do que apertar esses limites, acanhar nossa vida e nosso coração. Para quebrar esse círculo, para que todas as virtudes ocultas se expandam à luz, é necessária a dor. A desgraça e as provações fazem jorrar em nós as fontes de uma vida desconhecida e mais bela. (...)

É necessário sofrer para nos conhecermos e conhecermos bem a vida.
O primeiro movimento do homem infeliz é revoltar-se sob os golpes da sorte. Se, nas horas da provação, soubéssemos observar o trabalho interno, a ação misteriosa da dor em nós, em nosso “eu”, em nossa consciência, compreenderíamos melhor sua obra sublime de educação e aperfeiçoamento. Veríamos que ela fere sempre a corda sensível. A mão que dirige o cinzel é a de um artista incomparável, que não se cansa de trabalhar, enquanto não tem arredondado, polido, desbastado as arestas de nosso caráter. Para isso voltará tantas vezes à carga quantas sejam necessárias. E, sob a ação das marteladas repetidas, forçosamente a arrogância e a personalidade excessiva hão de cair nesse indivíduo; a moleza, a apatia e a indiferença desaparecerão em outro; a dureza, a cólera e o furor, num terceiro. Para todos terá processos diferentes, infinitamente variados segundo os indivíduos, mas em todos agirá com eficácia, de modo a provocar ou desenvolver a sensibilidade, a delicadeza, a bondade, a ternura, a fazer sair das dilacerações e das lágrimas alguma qualidade desconhecida que dormia silenciosa no fundo do ser ou então uma nobreza nova, adorno da alma, para sempre adquirida. (...)

Por mais admirável que possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio de que usa o Poder Infinito para nos chamar a si e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais rapidamente acessíveis à felicidade espiritual, única duradoura. É, pois, realmente, pelo amor que nos tem, que Deus envia o sofrimento. Fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo e melhorá-lo; trabalha incessantemente para tornar dóceis, purificar e embelezar nossas almas, porque elas não podem ser verdadeiras, completamente felizes, senão na medida correspondente às suas perfeições.

Para isso pôs Deus, nesta terra de aprendizagem, ao lado das alegrias raras e fugitivas, dores frequentes e prolongadas, para nos fazer sentir que o nosso mundo é um lugar de passagem e não o ponto de chegada. Gozos e sofrimentos, prazeres e dores, tudo isso Deus distribuiu na existência como um grande artista que, na tela, combina a sombra e a luz para produzir uma obra-prima.(...)

Por muito tempo ainda a humanidade terrestre, ignorante das leis superiores, inconsciente do futuro e do dever, precisará da dor para estimulá-la na sua via, para transformar o que nela predomina, os instintos primitivos e grosseiros, em sentimentos puros e generosos. Por muito tempo terá o homem de passar pela iniciação amarga para chegar ao conhecimento de si mesmo e do alvo a que deve mirar. Presentemente ele só cogita de aplicar suas faculdades e energias em combater o sofrimento no plano físico, a aumentar o bem-estar e a riqueza, a tornar mais agradáveis as condições da vida material; mas, será em vão. Os sofrimentos poderão variar, deslocar-se, mudar de aspecto; a dor persistirá, enquanto o egoísmo e o interesse regerem as sociedades terrestres, enquanto o pensamento se desviar das coisas profundas, enquanto a flor da alma não tiver desabrochado.(...)

Ó vós todos que vos queixais amargamente das decepções, das pequeninas misérias, das tribulações de que está semeada toda a existência e que vos sentis invadidos pelo cansaço e pelo desânimo: se quereis novamente achar a resolução e a coragem perdidas, se quereis aprender a afrontar alegremente a adversidade, a suportar resignados a sorte que vos toca, lançai um olhar atento em torno de vós!

Considerai as dores tantas vezes ignoradas dos pequenos, dos deserdados, os sofrimentos de milhares de seres que são homens como vós; considerai essas aflições sem conta; cegos privados do raio que guia e conforta, paralíticos impotentes, corpos que a existência torceu, imobilizou, quebrou, que padecem de males hereditários! E os que carecem do necessário, sobre quem sopra, glacial, o inverno! Pensai em todas essas vidas tristes, obscuras, miseráveis; comparai vossos males muitas vezes imaginários com as torturas de vossos irmãos de dor, e julgar-vos-ei menos infelizes, ganhareis paciência e coragem e de vosso coração descerá sobre todos os peregrinos da vida, que se arrastam acabrunhados no caminho árido, o sentimento de uma piedade sem limites e de um amor imenso!

Do livro 'O Problema do Ser, do Destino e da Dor'
Léon Denis (1922) Capítulo XXVI: A Dor - Página 283 
Baixar o livro completo em PDF

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doenças da Alma - por Joanna de Ângelis

A causa de todo transtorno e disfunção grave que tenha lugar na organização celular do ser humano ou nos tecidos delicados da sua psique, encontra-se fixada no Espírito, o incansável desbravador dos horizontes inconquistados do progresso, que os insculpe como necessidades evolutivas. Das ocorrências teratológicas às enfermidades degenerativas, às infectocontagiosas devastadoras, aos distúrbios psicológicos e psiquiátricos, ao aprofundar-se as sondas da investigação na procura da sua gênese, ei-la nos refolhos do ser profundo, preexistente ao corpo e a ele sobrevivente. As ideias acalentadas durante a reencarnação e fora dela emitem ondas de ação poderosa que se encarregam de plasmar no perispírito efeitos correspondentes que se convertem em futuras necessidades evolutivas, seja através de conquistas ou de prejuízos morais, facultando o surgimento futuro de facilidades iluminativas assim como de deficiências corretoras. A educação da mente é atividade do Espírito, que se porta ...

Vozes e vultos: alucinação ou percepção extra-sensorial?

Entre 5 e 15% das pessoas 1 relatam percepções ou experiências que fogem ao que convém chamar de 'realidade'. Ouvir vozes ou ver vultos são das mais comuns, e figuram na história de todos os povos e épocas, das mais sublimes inspirações e visões dos profetas, aos mais trágicos casos de loucura. Quem experimenta tais fenômenos raramente o afirma publicamente, assim evitando a zombaria ou desprezo social, por ser considerado 'louco'. Portanto, as vozes e vultos são as vezes bem 'reais' para o indivíduo, podendo ser até confundidos com a realidade objetiva. A informação cerebral proveniente dos sentidos físicos pode estar em conflito com o que é de fato percebido, gerando confusão mental. Este fenômeno é considerado normal numa certa medida e somente se torna patológico quando a sua frequência ou intensidade traz prejuízo ao equilíbrio mental da pessoa. As vozes de Joana d'Arc, a transfiguração do Cristo e a forma universal de Krishna. Na e...

A síndrome do pânico por Joanna de Ângelis - Primeira Parte

Em 1980 foi estabelecido como sendo uma entidade específica, diferente de outros transtornos de ansiedade, aquele que passou a ser denominado como síndrome de pânico, ou melhor elucidando, como transtorno de pânico, em razão de suas características serem diferentes dos conhecidos distúrbios. A designação tem origem no deus Pan, da Mitologia grega, caracterizado pela sua fealdade e forma grotesca, parte homem, parte cabra, e que se comprazia em assustar as pessoas que se acercavam do seu habitat, nas montanhas da Arcádia, provocando-lhes o medo. Durante muito tempo este distúrbio foi designado indevidamente como ansiedade, síndrome de despersonalização, ansiedade de separação, psicastenia, hipocondria, histeria, depressão atípica, agorafobia, até ser estudado devidamente por Sigmund Freud, ao descrever uma crise típica de pânico em uma jovem nos Alpes Suíços. Anteriormente, durante a guerra franco austríaca de 1871, o Dr. Marion da Costa examinou pacientes que voltavam do camp...